Havíamos conseguido!
Era a única coisa que eu podia pensar enquanto olhava a pequena caixa de metal que Jordan colocara no centro da van para que todos vissem. Engraçado como parecia com qualquer caixa mais elaborada que as pessoas costumam guardar coisas, talvez cartas, talvez joias. Não tinha nenhum detalhe fora do normal, nem mesmo no design, só era bem cuidada.
- Posso segurar? – A voz animada de Hannah perguntou e logo ela surgiu, por sobre o ombro de Jordan, com seus olhos afiados contrastando com o rosto infantil. Era sempre estranho fita-la de imediato, eu sempre tinha a sensação de que aqueles olhos eram de outra pessoa.
- Não sei se é uma boa ideia. Acho melhor chegarmos à Zona. – Arthur, que dirigia o carro, disse espiando pelo retrovisor brevemente. Nossos olhares se encontraram e eu senti aquela contração no estômago de sempre. Fazia três dias que ele não falava comigo, e eu não podia esperar menos, considerando o grau da besteira que eu fiz.
- Mas vamos demorar! E não custa nada, é só segurar! – Hannah teimou. – Isso aqui, isso pode ser a nossa chance, caras! De provar que a Organização é realmente opressora!
- Por isso mesmo que devemos ter cuidado com isso. – Arthur retrucou calmamente. – Foram quase dois meses de planejamento pra conseguir essa caixa, e não só isso, foi à vida de Lionel também, Hannah. Não é bem um motivo de comemoração, se você quer saber.
Foi como se uma onda fria tomasse conta do interior do veículo. Os olhares se desviaram, os sussurros e conversas pararam e os corpos se encolheram. Lionel era parte do grupo, uma parte fundamental, que ninguém sabia ainda como poderia encontrar alguém tão bom quanto. Eu não sabia como poderia. Ele fora o verdadeiro gênio da tecnologia dos A-chips. Ninguém em toda Fronteira conhecia mais sobre o funcionamento dos dispositivos como ele.
E ele estava morto. Ao menos o que ele fora estava.
A cena toda ainda passa na minha mente quando me distraio, o jeito cruel como as memórias e ele foram queimados, como se ele não passasse de nada além de um dispositivo de armazenamento regravável. O momento em que eu achei que tinha conseguido salvá-lo e ele pôs as mãos em torno da minha garganta e me sufocou: “quem é você?”
- Desculpem. – Arthur disse após um breve praguejo.
- É melhor guardar isso. – Felipe que até então permanecera calado dissera, inclinando-se para pegar a caixa e colocando-a no contêiner de proteção anti-rastreamento. Pelo que tínhamos averiguado a caixa não continua qualquer dispositivo de busca, o que eu achei estranho, mas os outros não deram importância.
- Hum, impressão minha ou aquele é o mesmo carro desde os quatro últimos cruzamentos? –Perguntei, olhando pelo vidro traseiro ao perceber que um carro nos seguia fazia um tempo.
Todo mundo ficou em alerta. Felipe já havia engatilhado a pistola de choque. Era um carro antigo, vermelho, e o condutor parecia tão antigo quanto, dirigindo enquanto tomava um copo de café despreocupadamente. Ele seguia não muito distante, mas não dava o mínimo sinal de que estivesse de olhos nos nossos movimentos. Arthur resolveu mudar a rota, subindo um viaduto. O carro vermelho fez o mesmo.
- Não disse! Não disse! – Hannah exclamou, batendo no banco. – E agora?
- Acalmem-se! – Arthur exclamou, a todo o momento olhando pelos retrovisores, aumentando a velocidade gradativamente.
Assim que descemos do viaduto o carro também desceu, cada vez mais próximo.
- Felipe, se prepara pra acobertara Hannah. Você, jogue as estrelas no asfalto. – Arthur ordenou para os dois.
Eu fiquei olhando a preparação, saindo do caminho.
- E eu? – Perguntei, me encostando contra o banco do motorista, onde Arthur estava.
- Fica aí. – Ele disse ríspido, de olho no retrovisor. – Segura a caixa.
Observei a movimentação, o cara acelerando, mas ainda assim sem olhar para o nosso carro. Tinha algo estranho naquela cena. Hannah abria a janela para jogar as estrelas, pequenas armas de metal que cortavam quase tudo, principalmente pneus em alta velocidade. Foi então que eu vi, do lado esquerdo um restaurante com o estacionamento lotado de outros carros antigos!
- Espera! Não! – Exclamei, puxando-a para longe da janela e derrubando algumas estrelinhas sobre nós, o que rendeu cortes novos as duas. Como se precisássemos...
- Ai! Ei! Por que você fez isso? – Hannah exclamou, choramingando ao ver as mais recentes feridas mancharem sua roupa. Arthur e Felipe resmungaram uma sequência bonita de palavrões, atônitos pela rapidez com que aconteceu.
- Olha só... – Apontei para o carro vermelho que já havia ficado muito para trás por ter entrado no estacionamento. Respirando fundo.
- Certo, mas bastava avisar. – Hannah reclamou, catando as estrelinhas com cuidado.
- Não daria tempo. – Eu disse, dando ombros, ignorando a ardência dos cortes e apertando o contêiner onde a caixa estava guardada. Estávamos todos exaustos, sujos, feridos e traumatizados. Precisávamos ter o dobro de cuidado e vigilância pra não cometer nenhum erro. Era o que Lionel diria e faria se estivesse ali. Era como voar, a decolagem e a aterrissagem sempre eram os momentos mais perigosos.
Descansei a cabeça contra o vidro, sentindo meus olhos pesarem. Eu só queria chegar à Zona e poder dormir, dormir por dias. Poder esquecer por um tempo tudo o que estava acontecendo. Talvez beber um pouco, quem sabe até ter uma amnésia alcoólica fosse algo bom, contanto que me aliviasse. Iria pirar a qualquer momento. Lionel morto, Arthur não falava comigo e éramos procurados por pessoas muito mais poderosas e maiores do que todos nós juntos. Aquela caixa era nossa esperança para um futuro diferente.
Então, é um texto escrito para um projeto de jovens escritores que eu decidi participar, um trecho de uma história que eu pretendo que seja original (já que só costumo escrever fanfics ou então pequenos recortes do cotidiano). Bem no estilo de matar dois coelhos com uma cajadada só, acabou que esse trecho também serve para 106ª edição de conto/história do bloínquês. Sei que vai parecer confuso, afinal é um trecho de uma história que vocês não leram, mas enfim, espero que gostem e comentem!

2 comentários:
Adorei o conto! Mesmo que fiquei confusa por não conhecer bem os personagens. Esse projeto de jovens escritores era para publicar num livro?
Boa sorte no Bloinques :)
Beijos,
Monique <3
http://www.secretsofalittlegirl.com/
Oi! Nem, é do PDL, eles abrem espaço pra jovens escritores publicarem suas obras originais :D dai decidi escrever uma, mas até agora só tenho trechos mesmo.
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